PESSOAS MAIS DO QUE ESPECIAIS...

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15 de fev de 2012

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TÔ BÃO NÃO


(mesmo estando em CAMBUÍ-MG)



_Paiê... tô sem sal
_ Hã??!!

Assim começarei este meu insosso texto. "Sem sal".
Mas, para você entender melhor essa história de "sem sal", vou começar do melhor ponto: do início.
Estou em Cambuí.
 Agora sim, considerado o mais novo cidadão Cambuiense juntamente com a Sra. Abranches, nosso filho Mateus (o que fez a bombástica revelação de estar "sem sal"), do nosso cão Nick (ele que não gosta de ser chamado de cachorro; é cão!) e do gato Mino, que desde que aqui chegamos anda miando de forma muito estranha... algo que soa como um “meow”. Mas deixando de lado a sensibilidade e crise existencial do Nick e a disfasia do Mimo, voltemos ao nosso tempero principal (ou à falta dele, pois meu filho está "sem sal").
Mudança é mudança e isso não muda nunca.  Assim como segunda feira é segunda feira e isso também não mud... TÔ BÃO NÃO!!!
Comparo “mudança” a um caos desorganizado. A minha, pelo menos, estava um caos organizado. Tudo dentro de caixas... uma beleza! Todas as 147 juntinhas... lindo de ver! (suspiro)
Às vezes eu parava...  ficava olhando aquele mundaréu de caixas...  e passava a acreditar que jamais conseguiria fazer com que tudo voltasse à normalidade. Sonhei com elas (as caixas). Na primeira noite de “casa nova” dormi sobre uma delas... acho que foi por isso do sonho. Malditas caixas! Amanheci igualzinho a um pacote de biscoitos cream cracker: quadrado e crocante. Não sei de onde saída tantos "crec's" do meu empertigado corpo.
Enquanto a "feitora" Sra. Abranches comandava – como diria minha amiga Paula – este “escravo Isauro” com palavras de ordem do tipo: "Põe essa aqui, aquela lá, aqueloutra acolá...”, Mateus fazia incursões na vizinhança na tentativa de conquistar novos amigos. Conseguiu-os aos pares e, junto, veio com esse: _Paiê... tô sem sal!
Na dúvida, fui perguntar à feitora  Sra Abranches se ela lembrava de ter ou não temperado o filho. De chicote na mão ela não me respondeu; apenas apontou para a próxima caixa. "Essa, pro' quarto".
_ Mas filho... que história é essa de "sem sal"? Perguntei eu.
_ Ô pai, demorô... Os "guri" da rua me ensinaram. Eles falam "sem sal" para quase tudo... muito massa!
_??!!
Aí eu te faço uma pergunta: pode uma coisa dessas? Cê já passou por isso? Alguém da sua família já lhe disse estar “ sem sal”?
Mas olha, não se preocupe. Assim como acredito que você deva estar agora (mesmo após ler esta maravilhosa explicação do meu filho), eu também fiquei. Pasmo! “Demorei” para entender. A gente vai ficando velho com mais idade e vai tendo esse tipo de dificuldade mesmo... o entendimento é mais lento; demora. Mas, conversa vai...  conversa vem... aos poucos fui sovando a "massa".
"Sem sal" é, de fato, uma linguagem muito especial. Uma forma de se expressar positivamente. Entendi que sua utilização é para quando se quer dizer que algo é realmente verdadeiro, positivo, certo, autêntico. Mas também serve para dizer que a situação está sob controle, que tudo anda bem ou que está indo numa direção certa, etc... É massa! Demorei, mas achei muito massa!
Para mim as segundas feiras sempre foram um dia sem sal. Um diazinho sem vergonha de tão insosso que é. TÔ BÃO NÃO!
Mas agora, depois desse aprendizado em Cambuí, percebo que não poderei mais aplicar esta expressão para esse dia. Não sob essa forma de linguagem... porque esse miserável dia não tem nada de positivo, autêntico... e muito menos ouso dizer que tudo anda bem ou quiçá que alguma coisa tome a direção certa em plena segunda feira. TÔ BÃO NÃO!!!
É um dia “sem sal” no sentido de ser um dia destemperado, um dia sem sabor, insípido, enjoativo, insulso, desenxabido. Ô dia indigesto, sô. É como comer chuchu refogado. Sim, é isso mesmo... segunda feira é um panelaço de chuchu refogado, sem sal. Dia de berinjela mal cozida... sem sal. Ou outros dias da semana são quindins, brigadeiros, papos de anjo, pamonhas, pés de moleque, cural, tortas de maça...! Mas as segundas... TÔ BÃO NÃO.
Enquanto eu tentava retirar uma caixa do lugar, operação essa que a feit... que a Sra. Abranches disse que mais parecia uma luta de sumô entre eu e a pesada caixa e que só faltava eu usar o mawashi (aquele fio dental gigante, feito de tecido grosso, que é enrolado em volta da cintura do lutador e passa apertado pelo fiofó), fiquei ouvindo o Mateus. Eufórico, contava que alguns dos novos amigos iriam estudar na mesma escola que ele e, provavelmente, frequentariam a mesma sala.
_ É mesmo, filho? Quem são eles?  (me arrependi imediatamente após a pergunta)
_ Ah, é o Bolacha, o Cubú, o Espanta e o Girino. O Ganso, o Xereba e o Zé das Pernas estudam em outro colégio. O Jiló e o Morcego levaram pau; vão repetir o ano.
_ Mateus, mas esses... esses... esses teus novos amiguinhos, além de não terem nenhuma pitadinha de sal, não tem um nome? Inquiri eu...
_ Demorô, Pai. Sei não. Eles são chamados assim mesmo. Esse é o nome deles.
Pois é. Por aqui as pessoas carregam um apelido e muitas das vezes esquecem o próprio nome. Lembra do Chibil Inchadinho que relatei numa outra osasião? Na verdade era o Sr. Luis Gomes da Silva? E nem ele se lembrava mais disso?
Fiquei imaginando a professora fazendo a chamada. Odem alfabética, claro: “Aranha... (presente), Bacalhau... (presente), Baleia... (presente), Balico... (hoje num veio, fêssora), Burunga... (presente), Calango... (presente), Caixa-d’água... (furou... furou o pé fêssora, ausente), Lamparina... (presente), Mateus... Mateus? Que nome estranho!?... Peladim... (presente), Três Orelhas... (presente) e por aí vai. TÔ BÃO NÃO.
Recordo que cheguei a escrever sobre uma figura folclórica que conheci por aqui. O nome (apelido) dele é “Nô tipo”, lembra? O que estava na porta do cinema e tudo o que perguntava a ele a resposta era sempre a mesma.
 _ E aí? Tudo bem? 

_ Nô tipo...

_ Será que chove?

_ Nô tipo...
_ O filme de hoje é bão?
_ Nô tipo... e dá uma gargalhada que me deixa a dúvida se queria dizer que o filme era bom ou ruim.
Pois então, essa figura fantástica apresenta uma outra peculiaridade ainda mais extraordinária. Ele simplesmente “some” nas segundas feiras... Isso mesmo, desaparece. Ninguém sabe onde o “Nô Tipo” se esconde ou se infiltra. Chegou o fatídico dia? Poof! puf!... sumiu o hômi. Passei a gostar ainda mais desse cara. Um cara muito massa... e absolutamente SEM SAL.

TÔ BÃO NÃO.
Mas a prosa tá muita boa, mas preciso resolver uma questão urgente.
Sra. Abranches me informa que faltaram 2 caixas... na verdade eram 149. Ihhhh... agora a coisa ficou até doce....
Grande e saudoso beijo para você. Tenha uma semaninha de muita luz, alegrias e de  trabalho bastante profícuo.
Fique com Deus.

Um comentário:

Rose e Elaine disse...

Olá João, estava sentindo falta das suas "crônicas" de segunda-feira...
Não fique tanto tempo sem postar as novidades, faz falta suas artes com eva.
abraços
Rose