PESSOAS MAIS DO QUE ESPECIAIS...

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20 de fev de 2012



TÔ BÃO NÃO...

... e nem poderia estar (56ª edição)


Cambuí. Você ainda me verá escrevendo muito sobre Cambuí.
Acontece que ainda estou desbravando esta terra, me sentindo como um verdadeiro “Bandeirante”. Tal quais aqueles que atravessaram a Serra da Mantiqueira em busca de pedras preciosas, também tenho garimpado minhas pepitas nesta terra. São elas os personagens pitorescos;  a vista de um pedaço deslumbrante da serra;  o casal de maritacas que resolveu sublocar o telhado da minha casa e agora alimentam 3 filhotes; a cordialidade do “bom dia”, do “boa tarde” e do “boa noite” que recebo toda vez que cruzo com alguém na rua, enfim, pequenas preciosidades que tanto me faltavam e ansiava tê-las.
Uma das atrações que chama a atenção de muitos turistas é o carnaval. Por aqui há desfiles de blocos de rua, escolas de samba e carro de som estacionado na praça central. Uma “loucura”!
Mas antes que de fato a loucura aconteça, Cambuí dá o seu “Grito de Carnaval” dias antes do sanatório geral.
Numa dessas, Sra. Abranches viu o cartaz na rua. Parou para ler.
Observei-a e vi que a atenção que ela dava ao cartaz, ia além da conta. Como um bom Bandeirante, senti perigo na floresta...
Uma revoada de escandalosos periquitos me veio como um mau presságio... meus cabelos eriçaram (os do braço, claro...).
_ Bem que poderíamos ir nesse Grito de Carnaval... Falou ela despretensiosamente num tom perscrutador. Falou como se estivesse pintando as unhas. 
Não. Berrei eu...
Mas ômi, é bom pra’ gente se socializar, conhecer pessoas...  Choramingou ela
Não. Repeti eu, porém num tom menos firme.
Ahhhhhh... vâmo. Faz isso não meu folião preferido... vâmo!  Sussurou ela como se movesse uma peça do tabuleiro para dar-me o cheque mate ou o tiro de misericórdia.
Nnnn.. não... Mas esse “não” saiu mais suave do que gostaria.
Olha, se você for eu...  Ihhh... lá vinha a chantagem. Mas antes que ela revelasse a promessa da vez e também porque - como um bom bandeirante - percebi que algumas pessoas já observavam o duelo verbal, cedi.
Tabão. Mas cedi com uma voz firme... voz de autoridade. Comigo é assim...
Mas algo dentro de mim soava como uma sirene de alerta. TÔ BÃO NÃO.
Já que a corda estava no pescoço e antes que o ar me faltasse, resolvi por um acaso perguntar ao carrasco “o dia” que ocorreria o tal do “grito” carnavalesco.
Bom, deixe-me aqui fazer uma paradinha para que a minha respiração volte ao normal (só de lembrar me acode a taquicardia...) e enquanto isso dando-lhe tempo para tentar adivinhar o miserável “dia” que ocorreria o tal Grito de Carnaval de Cambuí...  Em duas tentativas.
Adivinhou?
Pois é... TÔ BÃO NÃO!
Olha, cê já ouviu falar de Murphy? Das Leis de Murphy? Na verdade o nome completo do cabôco era Edward A. Murphy. Engenheiro aeroespacial norte-americano e responsável pelo resultado de testes em sensores de equipamentos da NASA. Esse sujeito otimista afirmava que “se alguma coisa podia dar errado, daria”. Bom, plagiando o otimismo de Murphy, digo que se algo pode dar errado, dará. Mas dará da pior maneira, no pior momento e de modo a causar o maior estrago possível se isso for numa segunda feira. TÔ BÃO NÃO. Sei disso.Esse dia é um dia tão... tão... tão miserento (miserável + lazarento), tão assobregético e camalioso que me milatina as congitivas abserviáceas para enoblefar as protuberâncias dos acarinídios incubercitosos no encaldeamento das efervecências que catilinam as mesocerbáceas. Sim, é isso as seg... feiras. TÔ BÃO NÃO.
Uma vez dada (e aceita) a sentença, a carrasca disse que precisava pensar na fantasia.
_ Fantasia???!!! Falei com voz trêmula, já nada parecido com um Bandeirante destemido...
_ É, uai... No cartaz diz que fantasia é “traje” obrigatório.
Se antes a minha sirene interna já soava alto, agora era um escarcéu. Um som de tsunami somado ao de uma avalanche estourava dentro de mim. ALERTA... TÔ BÃO NÃO.
_ Mas muié, que fantasia? Nunca usei fantasia... a única coisa que tenho e que “beira” a uma fantasia,  é o meu pijaminha... aquele do Superômi...
Pelamordedeus... não fale nesse pijaminha! Rosnou ela como uma guerreira Purí – antigos  habitantes da Serra da Mantiqueira – como se estivesse a acuar um bravo Bandeirante.
Sabe, vou te contar uma coisa: ela não gosta do meu pijama. Aliás, ela detesta o meu pijama. Acho que enjoou dele. Talvez porque eu o uso desde que ganhei. Foi no natal de 84 (ou será que foi em 85?), junto com o tapa olhos. Ou então deva ser porque eu visto a cueca vermelha por cima dele... não sei. Mas que é igualzim ao Superômi, ahhh... isso é. Meus filhos – quando pequenos - adoravam ver-me preparando para dormir. Só que, ao invés de entrar numa cabine telefônica para “a transformação”, como fazia o meu sósia Clark Kent, eu entrava era dentro do guarda roupa (quebrei-o umas 6 vezes por conta disso) e tcham... tcham... tcham... tchaaaammmmm... saía de lá o Superômi, com muita carne e pouco osso para orgulho e alegria da meninada. Às vezes me chamavam para dormir às 17:00h só para verem o super herói entrar em ação mais cedo. (suspiros de saudade...).
Bom, mas tão logo eu enxugue essa lágrima que teima cair, continuarei com essa verídica historia de grito, berro ou clamor, sei lá... do Carnaval de Cambuí.
Então... mas a guerreira Pruí Abranches bateu pé:
_ Sem fantasia o “senhor” não vai...
Olha, vou dizer uma coisa a você; quando a minha doce, gentil e meiga muié me chama de “senhor”, melhor abaixar as armas.
_ TABÃO. Respondi somente para contentá-la, muito embora a minha resposta foi num tom bastante severo. TÔ BÃO NÃO. Comigo é assim.
_ Mas a “Madame (dei o troco), quer que eu me fantasie de que então? Não tenho fantasia e nunca tive fantasia alguma. Aliás, só tive fantasia com a Angelina Jolie... mas isso foi só uma vez e já faz muito tempo (tentei corrigir o estrago...). E tem outra coisa: em casa, com toda aquela confusão de mudança, só tem caixas (malditas caixas!).
_ Pois então a sua fantasia vai ser de CAIXA. Será “O Homem Caixa”!.
Olha, se você estiver rindo, por favor, pare com isso e respeite minha dor! TÔ BÃO NÃO e a coisa é muito séria.
Não sei se essa idéia de índio (de índio Purí   kkkkkk) do “homem-caixa” foi só porque era a única coisa que tinha em excesso em casa, ou se foi por causa da revelação da fantasia com a Angelina Jolie (suspiro).
Fiquei um tempão sem falar com ela...
Passados então os 25min, perguntei-lhe o que na verdade queria dizer com “Homem Caixa”.
A essa altura do campeonato, Mateus começava a se interessar pela discussão, ao passo que o “cão” Nick e o meu felino afônico Mimo, saíram sorrateiros... (esses bichinhos têm uma sensibilidade extraordinária epercebem com antecedência o perigo).
Se este alarido, berro ou grito de carnaval ocorresse numa terça... quarta... ou qualquer outro dia da semana, tudo bem! Acredito que eu ia até ficar meio animadinho...Mas nós estamos falando de um evento numa s#@'*∞N  fLMDý... TÔ BAO NÃO.
Eu tinha absoluta certeza de que se existissem 4 maneiras de acontecer alguma coisa errada e, mesmo eu conseguindo resolver os 4 problemas, uma quinta situação catastrófica surgiria do nada. Daí apareceria uma 6ª... uma 7ª...  porque desgraça para acontecer num dia lazarento como é a   s#@'*∞N  fLMDý , nunca vem só, sempre ocorre em série. TÔ BÃO NÃO.
_ Mateus, pega lápis e papel. Vamos fazer um desenho de como será a fantasia do Homem Caixa. Ordenou ela com os olhos brilhando, como se acabasse de ter uma visão mística.
Enquanto Mateus saía todo serelepe, a zueira da sirene escandalizava dentro de mim.
_ Pai, vô desenhá uma armadura de caixa procê. Vai ficá massa... muito sem sal. Disse ele.
_ Precisa não, fí... basta rasgá um pedacim de papelão e pregá na minha testa que tabão. Respondí com voz doce, bem açucarada.
_ Nã...naní...nanão... a índia Purí interveio. Eu farei o desenho. Já tenho tudim aqui na cabeça. Será assim ó (risc...risc...rabisc...risc). Quando vi o resultado dos risc...risc...rabisc...risc  que ela rabiscou, quascaí dicosta.
Tente imaginar uma caixa pequena enfiada na minha cabeça. Imaginou? Agora tente imaginar nessa caixa, dois buracos para que eu possa enxergar o ridículo e, abaixo, um corte na horizontal supostamente para que eu ao menos respire e não morra sufocado. Ok? Imaginou? Então, essa coisa linda seria o meu elmo. TÔ BÃO NÃO... e não ria.
Logo depois vinha a armadura que consistia numa caixa maior com dois buracos na parte de baixo para que eu pudesse enfiar os pés. Na verdade eu entro na caixa e puxo-a até a altura do meu peito e depois “infio” os braços por dois buracos que foram extraordinariamente e milimetricamente muito bem pensados. Legal, né? Coisa de índio mesmo...
Mateus vibrava... eu tremia... ela rabiscava mais alguma coisa.
_ E tem mais? Perguntei.
Mas a índia Purí parecia não conhecer todas as palavras do meu dialeto tupi-guarani, pois me ignorou e chamou a mãe (minha sogra) para ajudá-la na elaboração da próxima peça.
_ Mãe, a Senhora consegue costurar isso aqui, para colocar ali e juntar àquela outra parte?
Minha sogra, antes de responder, olhou toda condoída para mim. Eu tive dó do olhar de dó da minha sogra. TÔ BÃO NÃO. Era um olhar que quereria me dar uma “força” e foi como me dissesse: “aguente firme... você é forte... tudo vai acabar logo...”
Mateus estava mais serelepe ainda e falou:
_ Mãe... demorô, né. Deixa que eu faço uns desenhos na caixa? Vai ficar massa... Pai pode até ganhar o primeiro lugar da fantasia mais original... vai até sair na televisão! Sem sal prá caramba...
Eu não tinha mais cabelo para arrepiar quando ele falou em “televisão”TÔ BÃO NÃO... mas vai ficar PIOR.
Sei que já tomei muito do seu tempo com essa história toda, portanto vou abreviar e pular a parte da confecção da fantasia e da discussão que tive com ela por causa da Angelina Jolie (suspiro).
Noite do grito. Praça central de Cambuí. Música estrondosa.
Ô..lê..lê...  Ô..lá..lá... Todo mundo animado.
Ô jardineira purquetá tão triste... o que foi quitiaconteceu... Cantavam.
Sra. Abranches estava fantasiada de...  Purí. Isso mesmo, fantasiada de índia. Talvez fosse saudade de Mato Grosso, sei lá... ou para afirmar que ainda estava no comando da situação.
Eu? Procurava apenas não cair.
Andava como um cubo mágico. Balançava prá lá... balançava prá cá... e assim ia encaixando os passos (encaixando... essa foi boa!).
Meu campo de visão era bem limitado (só enxergava em linha reta) e dependia da cacique para me conduzir. Ví uma zebra passando pela minha frente, depois um Frankenstein acompanhado da Bela Adormecida. Ví só a ponta de um chapéu de elfo e imaginei um anão. Vi múmias, piratas, pierrôs, palhaços...todas fantasias originais. E eu lá... de Hômicaixa. Até o Lula tava lá.
Bom, até aí eu tinha conseguido dominar todas as 4 situações inesperadas (não cair, não largar a mão da Purí, dançar balançando o mínimo possível e não suar tanto para não amolecer a roupa do tonto do Hôm... cê sabe). TÔ BÃO NÃO.
Até que apareceu a 5ª situação inesperada. A catástrofe... o 5º Cavaleiro do Apocalipse (imaginava que fossem só 4). E como a natureza está sempre a favor da falha, principalmente se esse dia for uma segunda feira: choveu.
Menina... mas choveu bonito. Derrama água nessa chuva que ainda é pouco.
Foi um corre-corre, uma confusão dos diabos (ví dois correndo bem na minha frente), todos tentando ocupar o único espaço coberto: o páteo da igreja. Tinha tanta gente, mas tanta gente, que ali não cabia nem uma caixinha. Então sobrei.
E  você sabe muito bem no que dá a combinação de papelão + água, né? O trem foi amolecendo, se desfazendo... a fita adesiva que prendia a caixa no meu traseiro, soltou-se... e a coisa tava pra piorar. Até que veio a 6ª situação inesperada através de uma pergunta da brilhante carnavalesca:
_ Cê tá com uma roupa por baixo, num tá?
_ ....


Bom, sei que ficarei sem sair de casa por uns meses (ou até esquecerem o “papelão” do Hômicaixa)
TÔ BÃO NÃO. (risos)


Devo confessar que nem tudo que escrevi é verdade.
O meu gato Mimo, ao contrário do que escrevi, não está mais afônico.

Grande beijo no seu coração e que sua semana se inicie com muita alegria e seja ela  iluminada e de trabalho profícuo.
Õ[õ Jota-A

Um comentário:

sibele disse...

tá dificil encontrar link para chegar nos comentários.
Mas vai me dizer que este homem caixa é vc?? uaiiii sô.. até que a ideia foi otima rsrs
adorei a historia, João aproveita e escreve um livro homem tá perdendo tempo rsrsr
Suas bolsas maravilhosas como sempre amei tudinho, aquelas de juta show de bola.
Parabéns